Cartago
certamente é um assunto que ainda rende muita discussão aos historiadores
modernos, devido á existência de poucas fontes de estudo sobre a cidade, a qual
ditou rumos ao comércio mediterrâneo antes da ascensão do poderoso Império
Romano. Localizada na cidade de Tunis, na atual Tunísia, no norte da África,
hoje somente restam ruínas da ocupação romana no local, sendo que a intensidade
dos conflitos entre cartagineses e romanos destruiu a cidade.
Cartago:
As origens
A data de sua fundação ainda é debatida entre historiadores.
Porém, tradicionalmente costuma-se considerá-la no ano de 814 a.C. Várias
origens lendárias da cidade são citadas por autores gregos e romanos, porém não
se pode extrair nenhum documento histórico verdadeiro sobre Cartago destas.
Durante algumas gerações, Cartago provavelmente foi um
pequeno centro comercial, não chegando a ter mais de algumas centenas de
colonos. Juntamente com ela, outras colônias foram fundadas pelos fenícios no
Mediterrâneo Ocidental. Á partir do século VI antes da Era Cristã, após a
Fenícia (metrópole) cair sob o jugo do Império Babilônico, Cartago tornou-se
autônoma e passou a exercer uma supremacia sobre outras colônias fenícias no
Mediterrâneo Ocidental, criando um Império no norte da África. A partir daí os
interesses de Cartago iriam se colidir com interesses dos gregos em várias
ocasiões, onde os cartagineses iriam sair vitoriosos. As vitórias nestes
conflitos permitiram à Cartago estabelecer e consolidar colônias na Sardenha.
Sob essa óptica conflituosa, Cartago diversas vezes formou alianças com líderes
locais, a fim evitar incursões e ocupações gregas em diversas partes do
Mediterrâneo, como em 535 a.C quando aliou-se as cidades etruscas da costa
oeste da Itália e impediu a ocupação grega na Córsega.
A Expansão
Inicialmente os efetivos militares eram formados por cidadãos da própria
cidade. Porem, á partir de meados do século VI a.C, sob o governo de Magon,
Cartago começou a reestruturar seu contingente militar e iniciou-se o recrutamento
de mercenários, os quais tiveram papel importante neste novo momento do
exército cartaginês. Contingentes vindos da região da Líbia constituíam uma
ligeira e eficaz infantaria. Em momentos distintos, mercenários de diversas
localidades do Mediterrâneo Ocidental serviram em Cartago, vindos
principalmente da Espanha, da Gália, da Itália e até da Grécia, destacando-se
as cavalarias Númidia e Mauritânia. Em 480 a.C as tropas cartaginesas foram
derrotadas nas cidades gregas da Sicília pelo Rei de Gela, sucedendo-se após o
conflito setenta anos de paz entre cartagineses e gregos, durante os quais
Cartago evitou entrar em conflito com os gregos, porém mantendo seu monopólio
comercial na região. Durante essa trégua, Cartago, liderada principalmente por
Hanão, iniciou uma expansão em solo Africano. Não se sabe precisamente a
extensão dos territórios conquistados por Cartago, porém é importante
considerarmos a conquista da península do cabo Bom e de um vasto território
situado ao sul da cidade, estendendo-se ao menos até Dougga e englobando as
terras mais férteis da Tunísia. Pondo ao fim a paz com os gregos, durante a
década de 350 a.C, em novos conflitos, Cartago dominaria quase toda Sicília.
Opressão aos povos dominados
Cartago era duramente criticada por seus inimigos, tanto pela exploração quanto
pelo rígido tratamento ao qual submetia seus súditos. Alguns eram
privilegiados, e estes eram as antigas colônias fenícias e as colônias fundadas
pela própria Cartago, as quais possuíam funcionários locais e instituições
semelhantes às de Cartago, e esse foi o caso de algumas cidades como Cádiz,
Tharros e dos fenícios de Malta. Porém estas cidades estavam submetidas
ao pagamento de taxas sobre as importações e exportações e ás vezes tinha de
fornecer contingentes militares, para a manutenção do exército cartaginês.
Outra localidade onde os súditos de Cartago eram favorecidos era na Sicília,
onde estes tinham direito as instituições autônomas e ainda cunhavam moedas desde
o século V, quando a própria metrópole ainda não as emitia.
Entretanto, alguém pagava o alto preço pelos
privilégios, e estes eram os líbios do interior. Tratados com muita dureza,
estes deviam a Cartago tributos e soldados. A taxa normal deste tributo
correspondia a 25% das colheitas, porém durante as guerras contra Roma, estes
tributos chegaram a assombrosa parcela de 50 %. Estes pagamentos eram
diretamente supervisionados pelos altos funcionários de Cartago, assim como o
alistamento de soldados.
O Comércio: Fonte de Riquezas
Sustentada essencialmente pelo comércio e tributação aos súditos, Cartago era
tida na época como a cidade mais rica do mundo mediterrânico. O comércio com
tribos atrasadas fornecia a Cartago ouro, prata, estanho e ferro (é importante
observamos que Cartago fabricava suas próprias armas), que em troca dava a
estes povos artigos manufaturados sem valor. Isso lhe garantia altos lucros, os
quais eram evidenciados pelos grandes exércitos mercenários que a cidade podia recrutar
entre os séculos IV e III a.C e pela cunhagem de moedas de ouro, que foi bem
mais intensa que em outras cidades igualmente desenvolvidas. Além disso, os
cartagineses possuíam notável habilidade na fabricação e tingimento de tecidos,
em processo artesanal, o que o tornava um produto de luxo e afirmação social,
explicando o seu alto custo. Era o Estado cartaginês quem dirigia e de forma
ativa os grandes empreendimentos comerciais, não permitindo concorrência em
suas áreas de atuação, afundando qualquer embarcação que adentrasse aquelas
águas. Supõe-se ainda que havia um importante comércio com os povos saarianos e
com os povos que viviam mais ao sul, porém não se pode provar, devido a falta
de evidências arqueológicas.
A Cidade
A cidade de Cartago possuía a reputação de
possuir uma incrível riqueza, porém hoje não se encontram traços arqueológicos
dela. Porém isso não quer dizer que a cidade não possuísse construções
importantes. A cidade tinha um sofisticado e moderno, para os padrões da época,
porto artificial duplo. Um porto externo, de desconhecida capacidade dos
arqueólogos, destinava-se ao uso dos navios mercantes. O outro porto, este
interno, tinha cais e era utilizado para abrigar em torno de 220 navios de guerra.
Ainda relacionado ao mar, é importante ressaltarmos a construção de uma torre
de controle que era suficientemente alta e permitia a observação do mar por
cima dos edifícios da cidade. Muralhas de dimensões excepcionais cercavam a
cidade, e possuíam aproximadamente 40 km de extensão. Os muros atingiam até 12
metros de altura e 9 metros de espessura, transformando a cidade em uma
fortaleza intransponível. Porém a cidade não tinha um aspecto planificado e
monumental, como aquele que caracterizava as cidades gregas. Desenvolveu-se sem
um planejamento, com ruas estreitas e sinuosas. No apogeu de Cartago, o numero
de habitantes da cidade, mais razoável e aceito pelos historiadores é de 400
mil pessoas. No mais, suas construções interiores não possuíam a exuberância de
suas cidades rivais gregas, sendo fabricadas com materiais baratos e abundantes
e baseadas em estilos arquitetônicos pouco destacáveis.
Política e Religião
Detalhes sobre o sistema político de Cartago ainda são pouco
conhecidos. Acredita-se que a base do sistema político em Cartago era
inicialmente, estruturada em torno de um chefe que tinha poderes judiciários,
políticos e militares, o qual era designado pelo título de rei. O cargo era a
princípio, eletivo e não hereditário, mas em certas ocasiões transmitiu-se de
forma hereditária, principalmente nas várias gerações da família magônida.
Durante os séculos VI e V a.C os reis assumiram quando foi preciso, o posto de
chefe militar. Esta estrutura se complementava com os sufetes, eleitos anualmente, os quais possuíam funções semelhantes
as dos cônsules romanos, administrando certas regiões do Império Cartaginês. A
eleição para os cargos de sufetes e
outros dirigentes era realizada pelos cidadãos. O nascimento e a fortuna eram
determinantes nas eleições.
A partir do século V a.C, o poder dos reis começou a
enfraquecer, à medida que crescia o prestígio dos sufetes e aumentavam o poder
e a riqueza da aristocracia. Além de exercer o direito exclusivo de poder fazer
parte de um Conselho de Estado, uma espécie de Senado formado pelos principais
mercadores, a aristocracia criaria uma corte de cem membros com função
específica de controlar todos os órgãos do estado.
Sabe-se que a vida religiosa em Cartago era marcada pela intensidade nas
crenças, e pela presença de sacrifícios humanos. Sua religião é politeísta e
compreendia uma série de deuses semelhantes aos da Fenícia. Os principais
deuses cultuados eram a suprema divindade masculina Baal-Hamon e a deusa Tanit,
a qual possuía aspectos ligados a fertilidade. Os sacrifícios comprovados
arqueologicamente, pela descoberta de urnas com ossadas calcinadas nos recintos
sagrados, levam a crer que tratavam de oferendas a Ball-Hamon e
Tanit.
As Guerras Púnicas e a Destruição
de Cartago
Até o ano de 276 a.C, entre Roma e Cartago não houve nenhum conflito
importante. Porém tudo começou a mudar no ano de 264 a.C, quando Roma aceitou a
submissão de Messena, que era aliada de Cartago. Segundo os políticos romanos
da época, Cartago não reagiria e as cidades gregas da Sicília não iriam reagir,
se tornando fáceis presas á expansão romana. Outros argumentavam que se os
cartagineses defendessem Messana, poderiam dominar a Itália, região na qual,
estes nunca estiveram interessados.
Com vista a evitar o rompimento no equilíbrio de
forças existentes na Sicília por um século e meio, e pelo fato da política
romana lhes parecer extremamente audaciosa, Cartago resistiu à intervenção
romana. A guerra que se seguiu (Primeira Guerra Púnica) durou até 242
a.C, marcada por muita violência, o que causou incalculáveis perdas a
ambas as partes. As forças cartaginesas no mar ficaram aquém das expectativas e
sofreram várias derrotas navais para os romanos. A guerra terminou em 242
a.C quando a frota de Cartago foi derrotada ao largo das Ilhas Aegates (Egadi).
Pelos acordos de paz assinados entre as duas potências Cartago teve de
renunciar a Sicília e concordar a pagar uma substancial indenização de guerra a
Roma.
Após o fim dos conflitos, aproveitando o fato de
Cartago estar sem condições de se defender, Roma apoderou-se da Sardenha, onde
não encontrou resistência. Para compensar a perda de territórios, Amilcar
Barca e seu genro Asdrúbal invadiram a região da Espanha, com a intenção de
também organizarem um exército para
enfrentar os romanos. Em menos de vinte anos, assumiram o controle de mais da
metade da península Ibérica eles criaram um exército de 50 mil homens. Em 221
a.C Asdrúbal foi substituído no comando do novo Império da Espanha pelo filho
de Amilcar, o célebre General Aníbal. No ano de 218 a.C Aníbal atravessou o rio
Ebro, dirigiu-se aos Alpes e desceu até a Itália montado em elefantes. Este
acreditava que Roma só podia ser destruída em seu próprio solo. Iniciava-se a
Segunda Guerra Púnica. Grandes vitórias cartaginesas foram registradas, com
enormes perdas no campo romano. Porém o exército romano tinha uma capacidade de
reposição de contingentes que Aníbal jamais pôde igualar. A partir de 206 a.C
um jovem general a serviço de Roma, Cipião, o Africano, conquistava a região da
Espanha. As forças de Aníbal não avançariam mais.
Em 203 a.C Aníbal é chamado de volta a Cartago. E foi na última batalha, em
Zama, que Aníbal foi vencido em 202 a.C pelo General Cipião. O tratado de paz
fez com que Cartago tivesse que se desfazer de sua frota marítima, além da
perda de territórios. Por fim, Cartago foi proibida de fazer guerra fora da
África, e mesmo em seu próprio solo sem autorização de Roma. Assim como na
primeira guerra púnica, Cartago foi novamente condenada a pagar indenizações
exorbitantes a Roma.
Após a vitória na Segunda Guerra Púnica, alguns membros do senado
principalmente Catão, que eternizou a frase delenda est Carthago (Cartago precisa ser destruída)
pressionaram Roma para a destruição definitiva de Cartago. Em fins de 146 a.C, após resistir
aos ataques romanos de todas as formas, o que restava do Império Cartaginês
sucumbiu frente aos ataques de Cipião Emiliano (neto de Cipião Africano).
Devido a rebeliões de mercenários, as defesas cartaginesas foram
desestruturadas. As forças romanas cercaram as muralhas da cidade, e após 3
anos atacando as muralhas da cidade conseguiram adentrar ao interior da cidade.
La dentro os conflitos foram de uma violência indescritível. Os moradores
defenderam a cidade, metro a metro, até a morte. Tudo estava consumado. Chegava
ao fim um dos mais importantes Impérios da Antiguidade. O resultado foi a
destruição total da cidade, e os habitantes sobreviventes foram escravizados e
vendidos em Roma. Posteriormente, nos governos de Júlio César a cidade foi
“refundada” como uma colônia romana, atingindo em curto período de tempo grande
prosperidade. Com a queda do Império Romano do Ocidente, a cidade permaneceu
como domínio do Império Bizantino até ser destruída novamente pelos árabes no
ano de 697.
Ruínas romanas em Cartago - Termas de Antonino
Referência Bibliográfica:
História Geral da África Volume
II – A África Antiga – Editor Gamal Mokhtar – Capítulo 18 – H, Warmington
(Reino Unido) Especialista em história da Antiguidade Romana e autor de várias
obras sobre a África do Norte.
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